Opinião da RBS: o desafio do transporte público

É urgente atacar o problema do desequilíbrio tarifário, antes que se torne incontrolável.

Encontrar tarifas justas e melhorar a qualidade do transporte de massa nas grandes cidades é um desafio planetário, especialmente no momento em que o setor enfrenta novas formas de concorrência ainda não totalmente compreendidas.

Recente estudo do Tribunal de Contas do Estado, publicado pelo site GaúchaZH, revelou que 4 milhões de pessoas deixaram de usar ônibus na Região Metropolitana.

A perda, contabilizada em cinco anos, é prenúncio de um colapso que precisa ser prevenido. Entre os motivos que motivaram a debandada aparece, com preponderância, o crescimento dos aplicativos de transporte, com tarifas mais atrativas e maior comodidade aos consumidores. 

Mesmo que represente vantagens inegáveis do ponto de vista dos usuários, essa transformação precisa de um olhar mais atento por parte das autoridades. É fundamental que haja, como em qualquer outra atividade, condições para que se estabeleça uma concorrência justa com os outros atores – táxis, lotações, ônibus e trens –, com regras que não gerem privilégios e, portanto, propiciem um real equilíbrio do sistema.

Qualquer análise nesse sentido seria incompleta se não levasse em conta, também, o percentual de passagens gratuitas concedidas a diversos segmentos. Hoje, na Capital, 30,7% das viagens de ônibus não são pagas pelos passageiros que as realizam, fazendo com que os custos acabem sobrecarregando a tarifa e, consequentemente, os outros 69,3% que utilizam esse meio de transporte. Concedidas ao longo de décadas de forma demagógica e irresponsável, as isenções acabaram se voltando contra os trabalhadores mais pobres, que arcam com o peso de uma falsa justiça tarifária. É preciso uma revisão urgente desses mecanismos, sob pena de pagarmos ainda mais caro em breve. Os sinais já são visíveis e preocupantes.

No mesmo relatório, o TCE detectou o envelhecimento da frota de coletivos em 88% dos municípios pesquisados, fenômeno que se revela, ao mesmo tempo, sintoma e gatilho de um desgaste nocivo à população. A degradação dos ônibus pune, especialmente, quem mora em regiões mais distantes dos centros das cidades, parcela considerável da população que não usufrui dos preços competitivos dos aplicativos nas viagens mais curtas.

Por outro lado, existem boas notícias na matriz de transporte das grandes cidades gaúchas. Mesmo que ainda incipiente do ponto de vista percentual, a utilização crescente de bicicletas e outros meios limpos significa um avanço do ponto de vista da qualidade de vida nos centros urbanos.

Feita essa necessária e positiva ressalva, é urgente atacar o problema do desequilíbrio tarifário, antes que ele se torne incontrolável. Repetidas vezes, quando tenta agir, o poder público esbarra no corporativismo reacionário. 

É o caso do projeto, apresentado na Capital, que prevê o fim da obrigatoriedade da existência de cobradores em determinados horários e que desobriga as empresas a contratar novos profissionais para essa atividade, já suprimida em boa parte do planeta. Apesar de não gerar qualquer demissão, a iniciativa foi ferozmente atacada.

Encontrar soluções para o impasse dos ônibus é tarefa coletiva. Só a pressão democrática e civilizada da sociedade dará aos prefeitos e vereadores a real dimensão de urgência. Sem isso, em breve, seremos atropelados por mais uma crise que deveríamos ter não apenas previsto, mas evitado.

 

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